Meu toque agudo perfura-te o toque suave
Tal qual olhar predador de encontro à presa,
Censurando o tempo que nos veda a eternidade
e o espaço implacável que nos separa do infinito.
Desabamos um sobre o outro como mortos,
na ciência plena da existência destes momentos
como os raríssimos segundos onde vivemos.
Plena e discretamente, vivemos um ao outro.
12.4.11
26.12.10
Odisseia
Pelos teus flancos fui poeta.
Profetizei a tua beleza em carne,
Reescrevi o teu encanto em dor,
Colonizei a tua mente escassa
E declarei ao tempo o meu amor.
Pelos teus toques fui músico.
Assoviei teu corpo exato em lá,
Admiti meu pandemônio em dó,
Compus teu canto em notas magistrais
E me calei de encontro ao teu melhor.
Comtemplando a tez das tuas ancas
Aceleradas e mecânicas amiúde
Confiei em minha plenitude,
Fui poeta, fui músico e fui rude,
Fui tanto que no fim fui só.
Profetizei a tua beleza em carne,
Reescrevi o teu encanto em dor,
Colonizei a tua mente escassa
E declarei ao tempo o meu amor.
Pelos teus toques fui músico.
Assoviei teu corpo exato em lá,
Admiti meu pandemônio em dó,
Compus teu canto em notas magistrais
E me calei de encontro ao teu melhor.
Comtemplando a tez das tuas ancas
Aceleradas e mecânicas amiúde
Confiei em minha plenitude,
Fui poeta, fui músico e fui rude,
Fui tanto que no fim fui só.
Cais
A água-viva morta na areia
A onda morta na baía viva
A água-viva viva na água
Água a vida na baía morta
A menina viva morrendo de dor
A dor menina morrendo de água
A água morta morrendo de vida
E a água-viva morta na praia
Na areia suja o cadáver de água
Na água suja o cadáver de areia
Na mente viva o cadáver de ideia
Da sujeira que pinta a defunta praia
A onda morta na baía viva
A água-viva viva na água
Água a vida na baía morta
A menina viva morrendo de dor
A dor menina morrendo de água
A água morta morrendo de vida
E a água-viva morta na praia
Na areia suja o cadáver de água
Na água suja o cadáver de areia
Na mente viva o cadáver de ideia
Da sujeira que pinta a defunta praia
16.12.10
Interseção
Teu timbre sussurra a melodia estática dos meus pés ofegantes
Enquanto me assalta os ouvidos com juras eternas de timbre.
25.11.10
Radar (ou a Triste história da Lua que morreu no Oceano)
Enquanto escutar o atlântico zumbido
de oxítona onda a rachar no sonar
Hei de amestrar o inato grunhido
que invade-me o sono e perscruta-me o ar
Se esboço quedar-me um sorriso contido
Se quisera-me outrora e em outro lugar
A espuma da quebra e da quebra o sonido
do vento trancado no tempo de amar
Meu corpo reage ao teu toque tímido
E teu corpo nem pensa em parar de tocar
E em corpos termina-se o amor mal escrito
Que nasceu na praia e morreu no mar
18.10.10
Ser só
I.
Errante, sondava as faces indóceis
dos corpos mil que não eram teus
O carater invasivo do som nauseante
de passos constantes, que não eram teus
Os sibilos alegres que entoavam amar-me
em acordes abstratos e canticos caricatos,
em oitavas imóveis e cirandas ignóbeis
em harmônicos pedintes e cantigas cortantes;
de lábios marcantes
que não eram teus.
II.
Meus, pois, são os lábios que calam teu limbo
e beijam teu corpo em pacto zodiacal com o firmamento
os passos malandros que me denunciam vassalo
e arrancam-te da rotina insondável de serdes mulher.
E os dedos que te desenham todas as formas,
esses só poderiam ser meus, uma vez que só eu
conheço o total das tuas formas e das tuas morfoses;
eu conheço tuas frontes, teus versos, tuas prosas.
Pois guardo-te em mim com prumas e pompas
Na rotina insondável
de sermos um só.
28.9.10
Strambotto
Senhora do meu semblante
Que ministra à vida o seio
Etérea fada em devaneios
Inexorável sepulcro do fel
Quimera a quem impinjo côrte
Guardo avesso ao teu sorteio
Cada um dos teus anseios
Tão modestos quanto o céu
Quem dera poder cegar-te
E proibir teus pétreos olhos
De correr de encontro aos meus
Pudera eu tender à sorte
De um acaso vil-simplorio
Desbotado em teu adeus
Esgotado junto à morte
Logro o corte do teu ser.
Que ministra à vida o seio
Etérea fada em devaneios
Inexorável sepulcro do fel
Quimera a quem impinjo côrte
Guardo avesso ao teu sorteio
Cada um dos teus anseios
Tão modestos quanto o céu
Quem dera poder cegar-te
E proibir teus pétreos olhos
De correr de encontro aos meus
Pudera eu tender à sorte
De um acaso vil-simplorio
Desbotado em teu adeus
Esgotado junto à morte
Logro o corte do teu ser.
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