14.2.13

borboletinha

Voa borboleta, voa
Voa pra longe daqui
Você que é pequena e bonita
Você, que chegou pra partir

Voa pela vida à toa
Voa, sem ter pra onde ir
Espalha de cor a cidade
E fique à vontade
Pra ir sem fugir

Sai dessa minha janela
Não que eu não lhe queira aqui
Mas já que tens asas tão belas
Me deixa as mazelas
E vai por aí

5.2.13

De antes de antes de ontem II

Não direi que o seu afago não conforta
Que as lembranças do seu corpo não me acudem
Não direi que se eu sair por essa porta
Minha vida não se entorta e eu não morro de ciúmes

Foram dele os meus sorrisos de criança
E só dele minhas teias de mulher
Foram dele cada uma das lembranças
E, pra mim, se acaba a dança é só porque ele já não quer

Não lhe digo que pra mim não há ninguém
Pois se o digo cada vez me entrego mais
Se é por isso que com ele não há paz
E as coisas que outro faz não me fazem nenhum bem

Dei-lhe parte em me afagar a solidão
Que tratou de machucar ainda mais
E ainda que só puxe-me pra trás
Não há nada que ele faça que me faça dizer não

18.1.13

Fumaça Pouca

Fora rápido e viscoso
Qual o limo da manhã
Fora o inevitável imã
Foi-se só e foi-se todo

Fora a lágrima do dia
Que em telhados a dançar
Foi-se embora sem pensar
Pelo sol que lhe assistia

Em percalços de prazer
Foram risos de alegria
Que os fizeram anoitecer

Foram sós a fim de ser
Foi-se, enfim, melancolia
E apagaram-se pra arder

8.1.13

Todo

Quem me dera agora
Um pedaço de aurora
Pra chamar de meu

Quem me dera agora
Gris e sem demora
Um pedaço de céu

Quem me dera ver-te
Feito em filme antigo
Preta, branca e muda
Com final escrito

Só queria ter-te
Qual me tens de todo
Qual me sabes certo
Pra acender teu fogo

Mas aqui e agora
Na minha demora
O céu traz a aurora
Com final escrito

Preta e branca história
Arde no teu fogo
Certamente exato
Pra me teres, todo

2.1.13

Ninar

Calma, agora, menina
Dorme junto com a lua
Esquece o choro da rua
Brinca de ser mulher

Seca o pranto, menina
Deita teu corpo nas nuvens
Pede às estrelas que inundem
O céu de tanto brilhar

Deixa o mundo, pequena
Dança balé no teu sonho
Esquece os teus desenganos
Lembra de mim quando der

Fecha os olhos, menina
E não me vê indo embora
Deixando a certeza que agora
Teu sono é só teu pra ninar

Desencontro

Será que esses dias não passam de ser
Se ontem era bom, e hoje nem sei
Se ora sou eu e ora não sou ninguem
Se eu te encontrei, me perdi e me achei

Nas idas e vindas dos nossos momentos
Perdi muito mais do que a fome de estar
No ventre vazio dos meus sentimentos
Perdi o que tinha, querendo ganhar

Nas noites, ao longe, eu te via dormir
E longe, eu queria estar lá pra acordar
Queria estar perto e não ver-te partir
Queria poder não deixar-te passar

Mas a vida é curta, louca e intermitente
E a gente se perde antes de se encontrar
E às vezes a gente se encontra e nem sente
E perde pra sempre a vontade de achar

26.12.12

De pés bem varridos e outras coisas mais

Não pense que um dia eu saí
Sorrindo sem quê por você.
Não é porque quero-te aqui,
Que podes vir quando quiser.
Não é porque a falta me faz
De boba e do que lhe calhar,
Que podes chegar feito onda
E levar minhas conchas pro mar.
Meus dias são poucos e meus.
E tens de mim, poucos e bons.
E, desses nossos dias, há céus,
Manhãs e manchas de batom.
Não trate-me feito boneca,
Mas cuide de mim como tal.
E um dia eu talvez seja dessas
Meninas que gostam do igual.
Se fosses de mim o melhor,
Serias ainda ruim.
E os restos do que foi um só
Seriam, pois, restos ao fim.
Não ligo, não quero dizer;
Não quero matar nem morrer;
Tentar e perder, a mercê;
Se for por você,
Não serve pra mim.